Da periferia de Alvorada, da região metropolitana de Porto Alegre, hoje morando no Rio de Janeiro, Adriano Viaro é meu parceiro de lives no YouTube. Acho prudente avisar o leitor desta resenha para entender que autores nunca são imparciais e que acompanhei a concepção do livro Anticoach, A Gênese do Caos (2024) antes dele ser publicado.
Viaro escreveu seu primeiro livro em blocos de notas no celular. Digitando furiosamente. Ao contrário do Anticristo de Friedrich Nietzsche, que chega a brincar com a estrutura do texto da Bíblia Sagrada, O Anticoach possui um começo caótico em “textos introdutórios que não introduzem nada”. O tom do ensaio é quase um vomitório, sem a parte repugnante da expressão. O autor, aos 48 anos e em seu primeiro manuscrito não acadêmico, permite-se despejar conceitos frutos de uma prolongada reflexão.
Essa é a primeira parte de uma estrutura de três grandes capítulos. Em “uma proposta de análise teórica”, Viaro, mais calmo, explica didaticamente o conceito de coach e de coachee, a cultura empresarial dos anos 2000 com a aut0ajuda que entrou nas escolas e nos planos de educação governamentais, para entrar na parte final de “dissecando a falácia”.
Destrincha o conhecimento por trás da desinformação do neopentecoachismo, unido com as ondas evangélicas mais recentes, e o apocalipsecoaching, bem com a uberização da vida e uma geração que desaprendeu o valor do conhecimento das gerações anteriores, com muito etarismo, e que não sai mais da casa dos pais.
Livro prepara uma explicação para o fenômeno Pablo Marçal
Viaro encerra o livro abordando o coachismo mirim, que está explícito no fenômeno de pastores-mirins, e é um livro que pretende ser uma trilogia. Ao longo das 144 páginas, o jornalista e historiador critica fortemente o conhecimento inacessível construído na academia e nas faculdades que está sendo destruído pelos coaches advindos de uma cultura empresarial tipicamente norte-americana.
E Viaro faz essa crítica justamente querendo recuperar os conhecimentos da formação escolar e de uma educação da prosperidade que o coach promete e nunca entrega. Todos esses conceitos anunciam como Pablo Marçal e palestrantes bem pagos estão se tornando atores de extrema direita para defender ideias do século 19 em uma roupagem adequada para o Instagram, incorporados pela política e pelas corporações.
A cultura coach contamina o universo dos videogames, da alta tecnologia e de executivos de diferentes segmentos. Viaro não promete respostas, mas aponta o caminho para obter conhecimentos verdadeiros – ao criticar sobretudo o pós-modernismo.
O período teórico pós-moderno não é um erro e nem um problema em si, mas apresenta esgotamentos ao não estabelecer poucos parâmetros no desenvolvimento humano. Viaro não retorna, necessariamente, ao marxismo mais clássico, mas faz uma crítica cultural, educativa e eu diria filosófica necessária neste primeiro ensaio.
Em março de 2025, no site Consultor Jurídico, o professor de Direito Lenio Streck, o mais citado nesse segmento no Brasil, fez uma recomendação na lata sobre o trabalho de Viaro: “Há hoje uma corrida rumo à desqualificação, como diz o Prof. Viaro, no seu livro Anti Coach – A gênese do Caos, que recomendo junto com o livro de Rubens Casara, A construção do idiota: o processo de idiossubjetivação. Livros esses que são antibióticos contra o vírus do brain rot. Por isso o subtítulo do meu Ensino Juridico e(m) Crise é Ensaio contra a Simplificação do Direito.
Eis o espírito do tempo (Zeitgeist). Vivemos tempos de ChatGPT”.
Um manifesto contra o idiota e a idiotice
Com abertura da atriz Angela Dippe, a eterna Penélope do Castelo Rá-Tim-Bum (e nossa querida amiga), O Anticoach de Viaro é uma junção de ensaios em um manifesto maior contra o idiota e a idiotice.
Em tempos de inteligência artificial, a babaquice é muito bem organizada para destruir o conhecimento.
Fonte: https://dropsdejogos.uai.com.br/noticias/resenhas/o-anticoach-e-necessario-em-uma-sociedade-contra-o-conhecimento-por-pedro-zambarda/
